Uma exposição

Arquitectura imaginária

 

É uma forma diferente de fazer realismo imaginário, esta de Marília Viegas, perfeita no tratamento do claro-escuro. A sua arquitectura não é, de facto, imagem do real, mas, também, não deixa um largo espaço à imaginação do observador, ao sonho e ao prazer de penetrar no seu interior. É uma arquitectura fechada, hermética, num espaço profundo, não o sonho mas o pesadelo inquietante das grossas colunas, dos pesados capiteis, das bases que são às vezes degraus sofisticados e se interrompem abruptamente, deixando uma angústia para lá do escuro em que se afoga a penumbra. O mesmo poderia dizer-se das paisagens de Marília Viegas (pintura e desenho quase se confundem no «tratamento» que a artista lhes dá), uma dúzia de peças expostas na galeria S. Francisco.

Há qualquer coisa de angustiante e pesado nestas paisagens, nestes espaços, nestes silêncios, nestas solitudes, nestas memórias sem retorno, como se o amanhecer que se anuncia ao fundo fosse ilusória chamada para um destino incerto, sem saída.

«Margens» chama a artista a algumas das suas propostas. Mas, se são de águas correntes ou de caminhos declivosos, a artista não quer dizê-lo, preferindo aqui a ilusão, aquele seu profundo sentido de nos barrar uma saída possível para uma vida sem horizonte. Memórias que falseiam a realidade, a pintura de Marília Viegas não é atraente, é obsidente, exprime um mundo em que nem todos teriam forças de habitar. Digamos, ainda (e tanto fica por dizer...), que a pintura de Marília Viegas e fria, feita de sombras verdes e plúmbeas, revelando muita segurança no manejo do lápis e no ritmo dos pincéis. A densidade, o contraste entre a sombra e a claridade (não a luz) cria o sortilégio de uma metafísica, ao mesmo tempo inquietante e lúcida.

M. A.

Diário de Notícias, 25 de Maio de 1983