As Cidades Revisitadas de Marília Viegas

 

Encontros ocasionais com o passado histórico, com o Egipto, ou com Arcimboldo desencadeiam uma pequena experiência com plantas, cactos, que parecem ter saído das cidades com formas orgânicas, ou então poéticas flores de lótus, que explora em quadros de pequena dimensão.

Mas Marília Viegas logo regressa às cidades, em cujas muralhas surgem por vezes os mesmos cactos e outras plantas colhidas no passado.

Contudo, há neste momento uma focagem nova, como se uma teleobjectiva nos aproximasse das antigas cidades e nos mostrasse apenas um fragmento, onde, um por um, vemos os edifícios, os pátios, as cúpulas. E a pintora, de repente, deixou-se deslumbrar pela terceira dimensão, pela textura da pedra cuja cor é dada com impressionante verdade, pelo que abandona os seus coloridos intensos e prefere os tons neutros, as cores terrosas.

“Cidades muralhadas” – assim as nomeia, porque é nas pedra dos muros, ou das próprias construções que a sua pesquisa se centra, numa pintura densa, volumétrica, texturada, matérica.

E a história continua presente, evocada pelas formas arquitectónicas, mas também pela Sensibilidade táctil que nos faz ver e sentir a rugosidade dessas pedras rústicas e antigas, de cidades romanas, medievais ou renascentistas.

E a minúcia do trabalho, que nos evoca técnicas da gravura, bem conhecidas da pintora, combina-se ousadamente com manchas de pintura pura, criando obras modernas, Inquietantes, onde presente e passado se cruzam.

Extrato do texto «Marilía Viegas – de Regresso às Cidades»

Margarida Calado

Maio de 2005