As Cidades
de Marília Viegas

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Cidades Imaginadas, mapas ou plantas de cidades antigas, de formas irregulares. Mas são mapas ou plantas muito particulares, como os que eram realizados nos séculos XVII e XVIII e, além das ruas, nos mostram as fachadas dos edifícios. A perspectiva é decididamente à vol d' oiseau, e, além dessas fachadas onde se identificam frontões e colunatas, continuamos a reencontrar as cúpulas que marcam a história da arquitectura europeia do século XVI ao século XVIII. Por outro lado, vemos também pátios interiores, ladeados de arcadas, que revelam algo do íntimo da cidade, aflorando a presença humana, apesar da sua ausência.

São também cidades muito especiais, que revestem formas inspiradas na natureza nas suas linhas de contorno, cidades-árvore ou cidades-flor, ou formas geométricas, espiraladas - cidades sem dúvida de um outro mundo ou de um outro planeta.

Os edifícios são minuciosamente desenhados, gravados mesmo sobre o fundo denso das tintas, de modo que a terceira dimensão toca decididamente esta pintura.

Surgem ainda telas coladas, cuja linha de união intencionalmente recupera a ideia dos mapas que estiveram enrolados ou dobrados e ganharam vincos eternos.

Para além das cidades, dos seus contornos de evocação naturalista, criam-se notas cromáticas, que por vezes invadem a própria planta da cidade e nos impedem de ver parte dos seus edificios, como se a planta estivesse irremediavelmente destruída.

Sentimos que Marília Viegas não está só. Vêm-nos imediatamente à memória as Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, "os mapas das terras prometidas visitadas em pensamento mas ainda não descobertas ou fundadas." Curiosamente a pintora só leu o livro depois de lhe terem sugerido a aproximação.

Também não viu a exposição que decorreu em Barcelona, de Outubro de 2003 a Fevereiro de 2004, subordinada ao tema La ciudad que nunca existió. Arquitecturas fantásticas en el arte occidental. Aí também se expuseram vistas de cidades tal qual existiram, enquanto outras são "arquitecturas de otros mundos, arquitecturas de leynda, espacios ambíguos, ciudades malditas ... ".

Coincidência? Sem dúvida. Mas que apenas comprova que o artista na sua pesquisa individual é sempre do seu próprio tempo e dele dá testemunho. A cultura ocidental desde a Grécia aos nossos dias, tem sido, com raras excepções, urna cultura de cidades. E perante a BabeI que cada cidade representa, o homem sempre imaginou cidades utópicas, descrevendo-as na literatura, projectando-as no desenho, ou pintando-as e assim tornando-as reais.

Marília Viegas entra assim no elenco dos construtores de utopias...

Bibliografia:

Ítalo Calvino - As Cidades Invisíveis. 2ª ed. Lisboa: Editorial Teorema, 1996

Delfín Rodriguez - «La ciudad que nunca existió?». In Descubrir el Arte. Ano IV, n° 57, Madrid: Noviembre 2003

Margarida Calado

Março de 2004