Inconscientemente Poético - Galeria d'arte Enes

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Mas os edifícios que anteriormente eram minuciosamente pintados, com cuidados técnicos e saberes de geometria e perspectiva que denunciam uma fase da sua carreira docente, são agora vistos ao longe, desdobrados, reflectidos, e a pintura torna-se outra coisa, caminhando em busca da luz e da sombra, das composições cromáticas, das texturas raras, num sentido abstractizante em que a referência arquitectónica é um fragmento integrado núma composição essencialmente pictórica.

Segundo a própria pintora afirma, neste momento é a sua actividade a nível da gravura que influencia a sua obra pictórica e que a levou a uma pesquisa de novas texturas, tentando trampor para a tela os efeitos de relevo obtidos nas matrizes.

Abandonada a geometria e o espírito de precisão que anteriormente marcara a sua obra, são outros os valores que se impõem, não perdendo, no entanto, o carácter poético que já anteriormente se sentia na sua pintura.

Por outro lado, as preocupações espaciais também não foram totalmente abandonadas. As arquitecturas, as colunas, os arcos, continuam presentes, mas agora apenas esboçados, em texturas relevadas que denunciam as caneluras das colunas ou sugerem paredes envelhecidas. São essas arquitecturas que se abrem para deixar ver um fragmento de paisagem, um quadro dentro do quadro, talvez apenas uma janela, através da qual revivemos o passado em citações arquitectónicas claramente identificáveis.

As cores também se enriqueceram, pois o abandono do rigor arquitectónico e a utilização de fragmentos pintados, permite-lhe regressar a cores vivas que já encontrámos nas suas paisagens e experimentar tons claros e brilhantes em contraste intenso com zonas de sombra - são os azuis, os verdes, os rosas...

Por vezes, em pequenas dimensões, ainda regressa à paisagem, cada vez mais abstracta, como se de um fragmento se tratasse das suas pinturas maiores. A forma do díptico permite-lhe um desdobramento do tema idêntico ao que por vezes encontramos nas arquitecturas integradas em quadros de maiores dimensões.

Influências ou escolas não a tocaram, embora se sinta na sua obra o eco do claro-escuro do barroco ou, por vezes, a intensidade luminosa de um Turner; mas na obra de Marília Viegas o encontro com a História faz-se pela via da arquitectura, preferindo assim afirmar-se como uma artista que tem percorrido o seu próprio caminho de forma muito pessoal alcançando uma expressão poética e solitária onde perpassam ecos de romantismo e/ou surrealismo.

Margarida Calado / 98